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terça-feira, 10 de julho de 2012

LUA E SOL

Quando brilhas no céu
Estreitas meu corpo que te chama
Em chamas retiro o fino véu
Para ser tua mulher, tua dama.

Apaixona-me o entardecer
Meus olhos mantém os teus reflexos
Mistérios me fazem te querer
E morrer em teus amplexos

Branca de virtude e fantasias
Sem saber onde acaba ou principia
Esquento a madrugada fria
Pois teu calor ainda se pronuncia

Ah, ânsia louca, teus beijos!
Ruborizada ante ao desejo
Que num instante de glória
Provoca um eclipse na história

Alhures os amantes se inspiram
Finalmente a paixão baila no ar
No céu estou de tanto amar
E as estrelas solitárias suspiram!

sábado, 31 de julho de 2010

O Menino Que Carregava Água Na Peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.

Manoel de Barros

sexta-feira, 12 de março de 2010

SÓ UM LEMBRETE DO QUINTANA

'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'
Mário Quintana

Enviado por Thaís Kieslarck Maciel.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz,
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-las
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo, nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar
e recriar a vida,
a nossa própria imagem e semelhança
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e entregar-se a todos os amores
sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo o desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda disposição
de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO,
e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente
chama-se PRESENTE
e tem a duração do instante que passa.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

VERSINHOS

"ESTÃO SENTINDO FALTA DE UM ANJO LÁ NO CÉU; PODE DEIXAR, EU NÃO VOU CONTAR QUE VOCÊ ESTÁ AQUI."


"É TRISTE AMAR ALGUÉM QUE É UM SONHO, MAS O SONHO É COMO O SOL: NADA O IMPEDE DE NASCER, NO ENTANTO, UMA NUVEM PODE APAGA-LO"


"QUANDO SENTIR A MAGIA DO LUAR SOBRE SEU ROSTO, TENHA CERTEZA DE QUE SÃO MEUS LÁBIOS BUSCANDO OS SEUS"


"EU QUE HOJE ESTOU SOFRENDO, SEI QUE DEVO MERECER POIS QUEM DISSE QUE ME AMAVA, EU UM DIA FIZ SOFRER."


"QUANDO AMAR ALGUÉM, AME DE CORAÇÃO, PORQUE A MAIOR DOR DO MUNDO, É A DOR DA TRAIÇÃO."


"NINGUÉM PODE IMPEDIR O VENTO DE VENTAR, NINGUÉM PODE IMPEDIR CHUVA DE CHOVER, ASSIM COMO NINGUÉM PODE IMPEDIR UM CORAÇÃO DE AMAR..."


"PROMETI QUE JAMAIS AMARIA NOVAMENTE, ENTÃO CONHECI VOCÊ E PERCEBI QUE NUNCA TINHA AMADO REALMENTE"


"SE ALGUM DIA LHE DISSEREM QUE VOCÊ NÃO FEZ NADA DE IMPORTANTE, NÃO FIQUE TRISTE, POIS O MAIS IMPORTANTE JÁ FOI FEITO, VOCÊ!"


"FUI TIRAR UM RAIO-X, OLHA SÓ QUE CONFUSÃO: FICOU SEU NOME ESCRITO NA CHAPA DO MEU CORAÇÃO!"


"PARA AMAR BASTA UM SORRISO, MAS PARA ESQUECER É PRECISO UMA ETERNIDADE."


"A DISTÂNCIA SEPARA DOIS OLHARES, MAS NUNCA DOIS CORAÇÕES."


"NUNCA OLHE PARA O CÉU À NOITE, POIS AS ESTRELAS TERÃO INVEJA DO BRILHO DOS SEUS OLHOS."


"COMO É DURO SER NADA PARA QUEM SIGNIFICA TUDO."


"O MOVIMENTO MAIS FORTE DO AMOR É QUANDO SABEMOS QUE ELE PRECISA MORRER, PORÉM NÃO TEMOS FORÇA PARA MATÁ-LO..."


"AQUELE QUE TENTOU E PERDEU É SUPERIOR ÀQUELE QUE NADA TENTOU."


"COVARDE NÃO AQUELE QUE CHORA POR AMOR, E SIM AQUELE QUE NÃO AMA COM MEDO DE CHORAR."


"O MAIOR ERRO DA HUMANIDADE É TENTAR TIRAR DA CABEÇA O QUE NÃO SAI DO CORAÇÃO!"


"SE QUERES SER FELIZ POR UM DIA, 'VINGA-TE', MAS SE QUERES SER FELIZ POR TODA A VIDA 'PERDOE'."


"SIMPLICIDADE É TER O CÉU E QUERER APENAS UMA ESTRELA, É TER O MAR E QUERER APENAS UMA ONDA, É TER VÁRIOS AMORES E QUERER APENAS O SEU."


"A PIOR COISA DA VIDA É SE TER POR AMIGO QUEM SE QUER POR AMOR"


"NÃO É O AMOR QUE FAZ O MUNDO GIRAR, MAS É O AMOR QUE FAZ COM QUE VALHA A PENA QUE O MUNDO GIRE."


"A VIDA É COMO UMA ROSA, CADA PÉTALA UMA LEMBRANÇA E CADA ESPINHO UMA REALIDADE."


"O AMOR É COMO O MAR..., PROFUNDO, MISTERIOSO E CHEIO DE SURPRESAS."


"SE FELICIDADE CAÍSSE DO CÉU LHE DESEJARIA UMA TEMPESTADE !!!"


"ALGUMAS PESSOAS FICAM FAMOSAS PELO QUE ELAS SABEM OUTRAS PELO QUE FAZEM E OUTRAS, COMO VOCÊ, PELO QUE 'SÃO'"


"O AMOR PERGUNTOU AO ÓDIO: PORQUE ME ODEIAS TANTO? O ÓDIO RESPONDEU: PORQUE UM DIA TE AMEI DEMAIS..."


" DIFÍCIL NÃO É LUTAR PELO QUE MAIS SE QUER, MAS SIM DESISTIR DO QUE MAIS SE AMA. EU PRECISEI DESISTIR. MAS NÃO PENSE QUE DESISTI POR NÃO TER MAIS FORÇAS PRA LUTAR, MAS SIM POR NÃO TER MAIS CONDIÇÕES DE SOFRER"


"QUEM TENTAR POSSUIR UMA FLOR VERÁ SUA BELEZA MURCHANDO, MAS QUEM APENAS OLHAR UMA FLOR NO CAMPO, PERMANECERÁ PARA SEMPRE COM ELA. VOCÊ NUNCA SERÁ MINHA E É POR ISSO QUE TEREI VOCÊ PARA SEMPRE..."


"SE UM DIA ESTIVERES SOZINHO, OLHE PARA O CÉU E VEJA QUE CADA ESTRELA ESTÁ SOZINHA E NEM POR ISSO ELA DEIXA DE BRILHAR"


"SE A PORTA DO SEU CORAÇÃO NÃO ESTIVER ABERTA PARA MIM, NÃO FAZ MAL; EU PULO A JANELA!!!"

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Mário Quintana

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Se - Pablo Neruda

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A DANÇA - Pablo Neruda

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.
.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.
.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
.
Se não assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O CORVO - Edgar Allan Poe - trad. Machado de Assis - 1883

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minha alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."

No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

Há Momentos - Clarice Lispector

Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

VERBO SER - Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As sem-razões do amor - Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Rifa-se - Clarice Lispector

Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

domingo, 8 de novembro de 2009

O USO DAS PALAVRAS OBSCENAS - Bertolt Brecht

Desmedido eu que vivo com medida
Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!

Há palavras que a foder dão euforia:
Para o fodidor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.

O puro fodilhão é de enforcar!
Se ela o der até se esvaziar: bem.
Maré não lava o que a arvore retém!

Só não façam lavagem ao juizo!
Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso).

sábado, 7 de novembro de 2009

Os Ombros Suportam o Mundo - Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

sábado, 31 de outubro de 2009

Canção do dia de sempre - Mário Quintana

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Conclusões de Aninha - Cora Coralina

Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.


O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?


Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra

terça-feira, 27 de outubro de 2009

COMETAS E ESTRELAS

Há pessoas estrelas.
Há pessoas cometas.
Os cometas passam.
Apenas são lembrados pelas datas em que passam e retornam.
As estrelas permanecem.
Os cometas desaparecem.
Há muita gente cometa.
Passam pela vida da gente apenas por instantes, gente que não prende ninguém e a ninguém se prende.
Gente sem amigos.
Gente que passa pela vida sem iluminar, sem aquecer, sem marcar presença.

Há muita gente cometa.
Assim são muitos e muitos artistas.
Brilham apenas por instantes nos palcos da vida.
E com a mesma rapidez com que aparecem, também desaparecem.
Assim são muitos reis e rainhas de todos os tipos.
Reis de nações, rainhas de clubes ou concurso de beleza.
Assim rapazes e moças que se enamoram e se deixam com a maior facilidade.

Assim são pessoas que vivem numa mesma família e que passam pelo outro sem serem presença.
Importante é ser estrela.
Estar presente.
Marcar presença.
Estar junto.
Ser luz.
Ser calor.
Ser vida.
Amigo é estrela.
Podem passar os anos, podem surgir distâncias, mas a marca fica no coração.

Coração que não quer enamorar-se de cometas que apenas atraem olhares passageiros.

E muitos são cometas por um momento.
Passam, a gente bate palma e desaparecem.
Ser cometa é não ser amigo.
É ser companheiro por instantes.
É explorar sentimentos.
É ser aproveitador das pessoas e das situações.
É fazer acreditar e desacreditar ao mesmo tempo.
A solidão de muitas pessoas é conseqüência de que não podem contar com ninguém.

A solidão é resultado de uma vida cometa.
Ninguém fica.
Todos passam.
E a gente também passa pelos outros.
Há necessidade de criar um mundo de estrelas.
Todos os dias poder vê-las e senti-las.
Todos os dias poder contar com elas.
Todos os dias ver sua luz e calor.
Assim são os amigos.
Estrelas na vida da gente.
Pode-se contar com eles.
Eles são uma presença.
São aragem nos momentos de tensão.
São luz nos momentos escuros.
São pão nos momentos de fraqueza.
São segurança nos momentos de desânimo.
Olhando os cometas é bom não sentir-se como eles.
Nem desejar prender-se em sua cauda.
Olhando os cometas é bom sentir-se estrela.
Marcar presença.
Ter vivido e construído uma história pessoal.
Ter sido luz para muitos amigos.
Ter sido calor para muitos amigos.
Ter sido calor para muitos corações.
Ser estrela neste mundo passageiro, neste mundo cheio de pessoas cometas, é um desafio, mas acima de tudo uma recompensa.
É NASCER E TER VIVIDO E NÃO APENAS EXISTIDO.

domingo, 25 de outubro de 2009

ARRISCAR É VIVER

Que o dia não seja esquecido
Para que a vida seja lembrada
Que a dor não seja abrigo
Para a alma abandonada

Que o momento seja presente
Para que a lembrança seja viva
Que ele se torne alívio a mente
Para que esqueça de vossa ida

Que o escuro não traga o medo
Para que a loucura um dia volte
Que o ontem não seja um erro
Para que o amanhã não seja morte

Que seja grande a esperança
Para que a vida seja forte
Que a felicidade não se alcança
Para aqueles que temem a má sorte

Que o risco seja sempre corrido
Para que possa mostrar meu mundo
Que o sonho não tenha ainda ido
Para que o poeta não viva mudo

E que a verdade possa, então aparecer
Para que aí, a vida possa acontecer

Autor: Raul Brito

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

SER JOVEM - General Mac'Arthur

A juventude não é um período da vida: ela é um estado
de espírito, um efeito da vontade, uma qualidade da
imaginação, uma intensidade emotiva, uma vitória da
coragem sobre a timidez, do gosto da aventura sobre
o amor ao conforto. Não é por termos vivido um certo
número de anos que envelhecemos; envelhecemos
porque abandonamos o nosso Ideal. Os anos enrrugam
o rosto; renunciar ao Ideal, enruga a alma. As preocupações,
as dúvidas, os temores e os desesperos são inimigos que
lentamente nos inclinam para a terra e nos tornam pó antes
da morte. Jovem é aquele que se admira, que se maravilha e
pergunta, como a criança insaciável: e depois? Que desafia
os acontecimentos e encontra alegria no jogo da vida. És tão
jovem quanto a tua fé. Tão velho quanto a tua descrença;
Tão jovem quanto a tua confiança em ti e a tua esperança,
Tão velho quanto o teu desânimo. Serás jovem enquanto
te conservares receptivo ao que é belo, bom, grande.
Receptivo às mensagens da natureza, do homem,
do infinito.

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